“O que estou tentando dizer é que, para mim, isso parece ser nada mais do que uma explicação pelo simples propósito de explicar. Não leva a lugar algum. Apenas arranha a superfície”.

The Wind Up Bird Chronicle, Haruki Murakami

Outro dia, estava ouvindo uma entrevista com uma renomada psicóloga que coordena o setor de transtornos alimentares do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo, e ela estava oferecendo uma análise dos transtornos alimentares pelo recorte da cultura de dieta e emagrecimento, e relacionando tudo isso a uma sociedade capitalista na qual não estamos mais tão conscientes de como nosso corpo interage com os alimentos.

A entrevista foi ótima, e tudo isso é verdade: realmente existe um vínculo quebrado entre o homem moderno e seu corpo, e a objetificação desse corpo, vendido como produto, afeta a saúde mental de todos que vivem nessa cultura. Não precisa olhar muito longe para ver a validade do argumento.

Mas essa entrevista também me fez recaptular a diferença de abordagem entre a psicanálise e a psicologia de um modo geral. Embora a explicação oferecida sobre transtornos alimentares esteja tecnicamente correta, como psicanalista percebo que é uma verdade incompleta.

Para Lacan, a linguagem comporta múltiplas verdades devido à sua ambiguidade própria, de modo que ele afirma que o psicanalista nunca pode chegar a uma verdade absoluta sobre o paciente porque ela não existe. Então sempre haverão outras explicações, que o psicanalista tenta articular a partir do discurso do paciente.

Ou seja, ao invés de explicarmos ao paciente o porquê ele sofre e o que deve fazer para melhorar, nós vamos fazer com que o paciente formule outras explicações além das que já temos. Pode parecer que o propósito é confundir o coitado do paciente, mas seguindo esse percurso um pouco mais caótico, o que estamos fazendo é complexificar a narrativa que contém o sujeito. Dessa forma, conseguimos ir além da verdade óbvia, do senso comum, da leitura social, em direção ao sujeito.

Atendendo transtornos alimentares em mulheres há anos, não posso deixar de notar como cada pessoa tem uma história de vida complexa, cheia de relações causais inesperadas com seu transtorno. Uma jovem se torna obesa para fugir dos olhares desejosos de um homem, uma adolescente se recusa a se alimentar para frustrar a demanda da mãe, uma mulher vomita para simbolizar sua culpa por aceitar doces na infância, e outra garota come doces escondidos como fazia com seu falecido avô.

É natural que, antes da análise, os pacientes utilizem explicações sociais para justificar seu desejo, que é muito difícil de ser articulado. Mas, para que haja movimento psíquico, é necessário buscar outras verdades, pois só assim o sujeito se apropria de seu discurso inconsciente.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *