
¹ A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?” ² A mulher respondeu-lhe: Podemos comer do fruto das árvores do jardim. ³ Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.” ⁴ “Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! ⁵ Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” ⁶ A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente.
Gênesis 3:1-6
Você já se percebeu anulando algo em você, a fim de manter o amor de alguém, e não sendo capaz de resistir a esse impulso, mesmo quando os resultados são ruins? Então aqui vai um pouco de teoria psicanalítica:
A demanda é aquilo que sentimos que precisamos fazer para receber o amor e a validação do outro. Uma vez que o ser humano é um animal frágil, que só sobrevive por meio de laços de amor, conclui-se que essa é uma necessidade muito enraizada, especialmente quando se trata de satisfazer figuras familiares que foram responsáveis pelos primeiros cuidados. Existe uma fluidez humana fundamental na qual chegamos a topar qualquer acordo para manter o afeto dessas figuras chave, ainda que isso nos prejudique. Isso pode se dar de tantas formas quanto existem sintomas, ou seja, infinitas. Essa função da demanda de mediar tais relações nem sempre é consciente, mas é familiar, algo que sempre fizemos, que sempre faremos.
O desejo, por sua vez, é aquilo que é particular a cada sujeito, que não se adequa às normas culturais, e que anulamos para conseguir atender à demanda. E quando digo “normas culturais”, me refiro não à sociedade como um todo, mas ao ambiente imediato no qual nos desenvolvemos, e aos canais por onde o afeto circula. Esse ambiente exige necessariamente deixar algo de lado, e nessa fissura se aloja o desejo. O desejo também é inconsciente, e talvez menos familiar, já que via de regra não estamos tão acostumados a exercê-lo.
Na passagem bíblica, Eva, por sua demanda de amor, vinha atendendo à demanda de Deus de não comer o fruto proibido. A lógica do desejo já está colocada aí desde o início, uma vez que se não estivesse, não teria porque o fruto ser proibido a ela em primeiro lugar. A serpente aparece como uma manifestação do desejo de provar do fruto que traz inteligência. Note que o desejo vem de fora, sob a forma de serpente, e não de dentro de Eva, o que está em conformidade com o que vinha sendo apresentado nesse blog sobre o inconsciente: um fenômeno de linguagem, externo àquilo que o indivíduo entende como “eu”. Eva então sucumbe ao desejo, como fazemos todos eventualmente, e precisa bancar o conflito resultante, ainda que tecnicamente o desejo não pertença à si, mas à serpente.
Com isso, entendemos que grande parte do sofrimento humano se traduz em um desacordo fundamental entre a subjetividade e a socialização, e a análise pode te ajudar a navegar isso.
Lacan diz que a direção do tratamento na psicanálise é a do o desejo. Ficar restrito a atender à demanda de amor faz com que o sujeito se perca, não saiba mais nada sobre si mesmo. O desejo continua aparecendo, mas de forma clandestina, como réptil rastejante, e apenas o processo analítico é capaz de interceptá-lo.
No caso da relação analítica, a demanda do paciente, endereçada ao analista, é a de ser curado. Atender à essa demanda, modificando o comportamento do paciente da forma que ele pediu, significaria sufocar o desejo. Nem o paciente e nem o analista saberiam nada sobre o desejo do sujeito, conheceríamos apenas as vontades do indivíduo que nos paga para continuar não sabendo sobre si. Para descobrir onde está o desejo, é antes necessário não atender ao seu pedido pela cura, o que exige uma dose de paciência e tolerância. É algo difícil de pedir de alguém: “vá falando, vá falando sem pressa e depois resolvemos”. E é por isso que uma relação de confiança é essencial para que você comece a sentir liberdade para explorar os caminhos do desejo.
