
“Bastava agora um gesto, uma palavra, um olhar distraído, um silêncio fora de hora, uma gargalhada solitária para que o sujeito fosse recolhido à Casa Verde. Um homem que se ria só, outro que se calava todo o tempo, outro ainda que falava demais — todos iam sendo recolhidos.”
Machado de Assis, O Alienista
No livro O Alienista, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte decide estudar as doenças mentais e funda a Casa Verde, um hospício na cidade fictícia de Itaguaí. Lá, ele passa a internar pessoas com comportamentos anormais, e uma vez que é impossível determinar com clareza o que é loucura e o que é sanidade, ele acaba por internar toda a população, e eventualmente ele próprio.
A obra é uma sátira genial que critica o uso da psiquiatria e das definições arbitrárias de loucura como instrumento de controle social e repressão da individualidade, e por fim questiona se a loucura está nos pacientes ou na própria lógica cientificista que tenta capturá-la. Vamos falar mais disso.
Como vocês sabem, entendemos nesse blog que a doença mental é um efeito de linguagem: ou seja, o discurso em que estamos inseridos se arranja de tal modo que produz sofrimento psíquico. O que considero interessante nesse ponto de vista é que existe ambiguidade no sofrimento, ambiguidade que é própria da linguagem: qual é o motivo desse sofrimento? O que ele significa? E se há espaço para perguntas com múltiplas respostas, há espaço para movimento, para a mudança de posição dentro desse discurso fundador do sujeito.
Não podemos esquecer que a psiquiatria também é um discurso, não é uma realidade objetiva, e sim uma narrativa sobre o sofrimento psíquico, e como qualquer discurso tem efeitos sobre o sujeito. Sim, a proliferação dos diagnósticos psiquiátricos têm mudado a forma como o sujeito da sociedade contemporânea interage com seu sofrimento, o que torna esse tema extremamente relevante para a psicanálise.
Ao invés de perguntar sobre sua subjetividade, o indivíduo capturado pelo diagnóstico psiquiátrico tem já uma resposta pronta: é porque sou [insira diagnóstico].
Isso significa que aquilo que na psicanálise vemos como particular, como contextualizado por uma história de vida extremamente complexa, e referido por uma memória não linear, se transforma, sob o império da psiquiatria, em categoria social. Via diagnóstico, que costuma ser obtido dentro de uma única consulta, somos imediatamente realocados em um grupo social de pessoas que são categorizadas da mesma forma que nós, sufocando qualquer espaço para perguntas.
A intenção desse artigo não é demonizar a psiquiatria, pois é a única via de acesso a um tratamento medicamentoso que é essencial ao bem-estar de muitas pessoas. Não há nada de errado em se consultar e consumir medicamentos.
Mas, se há uma coisa que a psicanálise lacaniana representa, é o apelo à preservação do espaço para a fala, o único caminho até a verdade do sujeito.
